Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 2 de julho de 2008

MACHADO DE ASSIS E GUIMARÃES ROSA: CENTENÁRIOS MEMORÁVEIS EM 2008.



Ana Maria Vieira Silva*

A Literatura Brasileira registra no ano de 1908 dois acontecimentos de grande relevância em sua história. É nesse ano que, em 29/09, morre Machado de Assis, o maior escritor brasileiro de todos os tempos. É também nesse mesmo ano que, em 27/06, nasce João Guimarães Rosa, escritor mineiro que inovou a linguagem das narrativas ficcionais brasileiras de caráter regionalista.
Machado de Assis e Guimarães Rosa são dois geniais escritores, verdadeira unanimidade de crítica literária nacional, cuja metalinguagem permite desdobramentos na própria interação entre as esferas do autor e a do leitor. Pertencem a duas épocas distintas e possuem estilos que em alguns aspectos apresentam semelhanças e em outros se distanciam completamente. A obra de Machado é permeada pelo pessimismo de Schopenhauer, narrando-se o desespero de uma vida onde tudo se tornou vão. A de Rosa, enlaça a admiração inicial de Nietzsche por Schopenhauer para, contudo, reverter esse pessimismo através da teoria do eterno retorno e dos aforismos de Zarathustra, com a alternância da alegria e do desespero, da criação e da destruição, do bem e do mal.
Em suas obras, Machado é o grande observador e analista da vida metropolitana da cidade do Rio de Janeiro. Ele observa, critica, ironiza, sempre com a intenção de conhecer melhor a alma humana e os comportamentos individuais na sociedade burguesa do século XIX.Guimarães Rosa, além de escritor, era médico e diplomata. Homem letrado e viajado. Como escritor, também é um grande observador. Há, inclusive, provas de que fazia isso sistematicamente, já que possuía inúmeros cadernos de anotações nos quais registrava fatos, descrevia as formas e cores da flora e da fauna do sertão mineiro e das atividades próprias dos lugares por onde andou, principalmente os aspectos que caracterizam o sertão de Minas Gerais – Os Gerais -, denominação utilizada pelo escritor para se referir aos campos, serrados e caatingas da região norte de Minas. Rosa, assim como Machado, apresenta personagens complexos, com dupla personalidade, com conflitos psicológicos, lidando com atitudes maniqueístas, mas, diferente de Machado, suas narrativas são ambientadas no sertão. É a vida simples do vaqueiro, do jagunço, do fazendeiro, com suas crenças e linguagens simples, que povoam o imaginário rosiano.
Se Machado surpreende pela linguagem polida, correta, sempre enquadrada nos padrões gramaticais de norma culta, Rosa vai mais além, pois apesar de grande conhecedor da gramática normativa, é o primeiro escritor que ousa inserir o linguajar dos habitantes do sertão ipsis verbis, isto é, registra, sem nenhuma alteração, muitas das variações utilizadas pelos falantes, o que resultou numa narrativa em que a escrita é permeada por aspectos próprios da oralidade. E não apenas nisso Rosa inovou. O léxico utilizado por esse escritor é riquíssimo em neologismos e arcaísmos e tem sido utilizado como corpus em inúmeros trabalhos acadêmicos em várias áreas do conhecimento: na biologia, na física, na geografia, na antropologia, enfim, há até trabalhos que exploram o caráter místico da obra de Guimarães Rosa.
Para Luiz Costa Lima, o uso do aforismo em ambos escritores é o que os distingue. Para Machado, o aforismo identifica-se como o lugar-comum, moeda-corrente, demonstrativo de uma “enfermidade depositada na linguagem e em seus usuários”(Li ma,1974, p.56). Já para Rosa, o aforismo corresponde à violação desse lugar-comum, fazendo do indivíduo índice de eventualidade. Índice de individualidade para um, sugestão de universalidade para outro, esses os extremos opostos a caracterizar os dois autores. A metalinguagem exercida por Machado junto às personagens será aplicada em Rosa junto às próprias palavras, onde o aforismo, tornado ambíguo, dará às personagens sua dimensão existencial.
Os dois escritores, cada um a seu modo, imortalizaram-se ao produzir obras que se tornaram marcos, “divisores de água”, na Literatura Brasileira. D.Casmurro, de Machado de Assis, e Grande Sertão:Veredas, de Guimarães Rosa, são, indubitavelmente, obras memoráveis que extrapolaram suas épocas e continuam servindo como objeto de estudo para inúmeras investigações científicas. Nesse sentido, vale registrar a análise feita por Madeira Filho (2000, p. 203), referente a D. Casmurro e Grande Sertão:Veredas:

Ambos os romances se expandem em uma cartografia fática - espelho refratário da outra, a da alma. Machado descreve as ruas do Rio de Janeiro, sugere seus subúrbios como o pano de fundo da mimesis social, prolongamento de um modo de ser típico a uma classe dominante que demarca seu território e seu domínio. Rosa, por sua vez, explora as trilhas do sertão, para abarcar um mundo alegórico que, de acordo com a filosofia patrística, justifique em Riobaldo o proprietário e patriarca.

É por essa e outras razões que o ano de 2008 deve ser lembrado como aquele em que se celebra o centenário de morte de Machado de Assis e o de nascimento de Guimarães Rosa. Cabe, principalmente a nós, acadêmicos, professores e alunos, conhecer e valorizar com maior profundidade a obra desses dois magníficos escritores, talvez os dois maiores expoentes da Literatura Brasileira de todos os tempos.


Referências

ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Nova Cultural/Círculo do Livro, 1994.

LIMA, Luiz Costa. A metamorfose do silêncio. Rio de Janeiro: Eldorado, 1974.

MADEIRA FILHO, Wilson. Subúrbios e veredas – Apontamentos para uma leitura comparada dos narradores em Dom Casmurro e Grande Sertão:Veredas. In: Revista Scripta – Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras e do CESPUC. Belo Horizonte: CESPUC/ Ed. PUC Minas, V. 3, Nº 6, 1º semestre de 2000, p. 201-212.

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão:Veredas.Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

__________________________________
*Professora de Teoria Literária, Literatura Portuguesa e Brasileira no Campus da UFPA-STM.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Emir Bemerguy: A biografia de um artista

Por Sâmela Ramos

Poeta
“Poeta é o sujeito esquisito
Que planta a castanha do caju
A semente da goiaba
O caroço da manga
E já é capaz de ouvir
Os passarinhos que,
Quatro ou cinco anos mais tarde
Se agasalharão, cantando
Nos ramos da fruteira.”

O poeta que não é santareno de nascimento, mas exalta e enriquece a nossa literatura, nasceu em Fordlândia, em março de 1933. Estudou em Belterra, Santarém e Belém. Formou-se em Odontologia. Colaborou em vários jornais da cidade e capital.
É autor de centenas de letras musicadas pelo maestro Wilson Fonseca, com o qual tinha grande amizade. Emir Bemerguy representa, brilhantemente, um típico cidadão santareno. Em sua produção literária, incluem-se belos poemas, crônicas, contos, romances, que poderiam estar presentes em muitas obras. “Aquarela Mocoronga”, lançado em 1984, é um de seus livros, nele as belezas amazônicas, e, em especial, as de Santarém, são exaltadas pelo poeta.
Várias escolas de nossa cidade, e cidades da região, cito Itaituba, têm hinos com letra de sua autoria.
A sensibilidade do poeta abre-nos os olhos para a grandiosidade da literatura de expressão amazônica, da identidade desse povo, especialmente o santareno.
Recentemente, o ICBS (Instituto Cultural Bonerges Sena) lançou seu livro Momentos Poéticos, que reúne mais de 100 poemas do artista, encontram-se também músicas consagradas e hinos.


E Deus Criou os Anões
“Existem corações.
De vários tamanhos.
Alguns são tão pequenos,
Que as menores dores
Parecem insuportáveis,
Pois ficam apertadas
Dentro deles.
Foi assim que apareceram
Os anões espirituais
Incapazes de carregar
Cruzes maiores.”

Não encontramos apenas regionalismo na produção poética de Emir Bemerguy. Seus poemas alcançam, também, universalidade, e seus temas, a sentimentalidade e um caráter reflexivo. Assim é o nosso poeta, simples, porém, muito grandioso, sorte dos que o lêem.